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Sequestro

*Andreza Taglietti

As reticências
A urgência
A eloquência
A cadência
A tangência
A resistência
A impermanência
As reticências

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Relações líquidas, relações cítricas

Sonhei com um grande amor. Uma noite. Tão breve. Tão leve. Quatro caipirinhas para ele. Quatro caipirinhas para mim. Oito no total. Três limões em cada uma. Três-limões-vezes-oito. Vinte- e-quatro. Duas dúzias de limões. Beijos deliciosamente cítricos. Ali na Vila Madalena. E uma dose de Marçal Aquino – o amor é sexualmente transmissível*.

No sonho, ele – não, não o Marçal -, refiro-me ao meu grande amor – ele pedia desculpas por tudo. Por ter que ir embora tão rápido. Por ter que dar atenção às mensagens do celular. Pela pronúncia tão irresistível e errada do meu nome. Sim, além de um amor líquido, era estrangeiro. Talvez clandestino. Quem sabe ilegal, Mano Chao.

Horas depois, mais pra madrugada, meu grande amor líquido e cítrico me disse – você precisa escrever sobre. Ponto final. Talvez eu ainda escreva sobre o-que-ele-me-pediu-para-escrever-sobre. Ou não escreva. Talvez já tenha escrito.

Acordei sem ressaca. Mas senti saudades.

*Frase retirada do livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.limao izzy-gerosa-80667-unsplash.jpg

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O presente de viver no presente

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Andreza Taglietti

Moça, você pode pegar a bola pra gente? Cansada dos pés dos meninos, em um ato de rebeldia, ela quis voar. Ultrapassou o alambrado da quadra, mas não sustentou seu voo. Cento e oitenta graus. Chão. Pontaria. Bem em cima da bandeira do Brasil, lindamente grafitada no asfalto. Cena de uma tarde que nós só testemunhamos (e participamos) quando estamos de férias ou de folga, porque sempre estamos-na-correria-com-pressa-atrasados-distraídos-ausentes. Ou quando somos crianças. Em poucos segundos, no papel de gandula-quarentona e interagindo com os impacientes jogadores mirins, eu estava num túnel do tempo, ali pelos anos oitenta-noventa.

Lá estava ele. O passado e o hábito de romantizá-lo. De endeusar épocas, datas festivas e pessoas. “Quando pensamos no passado são as coisas bonitas que escolhemos sempre. Queremos acreditar que era tudo assim”, li no Conto da Aia, de Margaret Atwood. Amamos amar a nostalgia. Herdamos dramas e enredos que não são nossos.

A cena da bola e o passado. O nosso quintal era divertidamente dominado pelo Buck, nosso pastor alemão que tinha um ponto fraco: um amor incondicional por objetos que caíam ou deixávamos por ali (as inúmeras camisas e toalhas no varal, por exemplo). Ele agarrava com os dentes e não havia negociação. Um desafio para nós e para os meninos da minha rua que ficavam desolados quando Buck, exercendo sua função de goleiro, agarrava amorosamente as bolas (sim, no plural, porque ele furou muitas, de diferentes modalidades – vôlei, futebol etc). E Buck tinha outra fraqueza – não gostava de Copa do Mundo. Nada contra o Zagallo ou contra os argentinos, garanto. Os fogos de artifício o deixavam apavorado. A cada gol, um show de contorcionismo do nosso querido e assustado animal de estimação que assistia aos jogos conosco.

Ao pegar o caminho de volta no túnel para 2018, lembrei de outros cachorros, de outras casas que morei (não tantas mudanças quanto minha amiga Priscylla, claro), da minha rouquidão no tetra, das comemorações do penta. E, claro, dos 7 a 1 em 2014. Escalei mentalmente e rapidamente alguns jogadores numa seleção só, sem me importar com o ano e com a posição em campo: Cafu, Rivaldo, Zico, Taffarel, Sócrates, Bebeto, Ronaldo. E Shakira no meu Spotify. Incorporei a diva colombiana. Waka, waka, êê. Fiquei felizona com essa grande festa que organizei mentalmente. Romantizei meu passado, admito. Mas, sabe, eu gosto muito das coisas como elas são hoje. É um presente viver no presente. É um presente estar presente. É um presente ver mais uma Copa do Mundo.

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Em quatro rodas

Andreza Taglietti

O affair metropolitano. No uber da noite.  Trajeto curto. Temperatura alta. Alta demais. Ebulição. O (mesmo) affair metropolitano. No uber da manhã. Uber pool. Eu, ele, honestidade, afeto e poesia. Entre um radar e outro. Ali na Dr. Arnaldo, na altura do viaduto da Sumaré. Lembrei da Zélia Duncan. A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu. Por favor, Senhor Waze, qual o caminho mais longo? Não quero finalizar essa viagem, não. Sexta-feira treze. Vida que segue. Pro sentido paulista.

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Dentro ou fora

Andreza Taglietti

Às vezes eu acho que vai chegar uma mensagem dele. Só às vezes.

Às vezes eu acho que o barulho da maçaneta ainda é a vida a dois.

Às vezes eu durmo só do lado direito da cama.

Às vezes compro o tipo de arroz favorito dele, para ele não fazer aquele risoto dos deuses.

Às vezes coloco duas toalhas para o nosso não-banho.

Às vezes sou os números dele. O telefone. A placa do carro. O CEP. A data de nascimento. Não sei informar o atual estado civil.

Às vezes ele está tão dentro de mim. Às vezes tão fora. Às vezes dentro ou fora é o que menos importa.

Às vezes o Google (e só o Google) me ajuda a decidir nosso próximo destino.

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É crônico 

Andreza Taglietti

Paula se despedia. Paula não queria. Paula já sabia. 

Já reconhecia os sintomas. A garganta. Nó.Engasgo. Mãos que não se davam. Mas se acorrentavam. Prisão. Algemas. O olhar de reprovação. Raivinha. O enjoo do perfume. Náusea. Repulsão. Buquê que vira ce-cê. Sândalo que vira catinga. Jasmim que vira gambá.

Abraço-sufoco. E um colo quente demais para o coração de Paula. Tomara que a gente não possa se ver hoje. A prece da monotonia. A prece da saturação. Não é possível. Tudo de novo. Reprise. Verdade. Talvez nunca tenha sabido amar.

Saciedade. Lassidão. Insipidez. Mortificação. Tédio. Reprise. Verdade. Descobri que não te amo mais. Um bom jeito de começar? Ou de terminar? Paula precisava ver o filme de novo. Como Cristina fez pra deixar Maria Elena e Juan Antonio mesmo? Vamos lá. Era fácil. Cristina não estava mais feliz. Paula também não estava mais feliz. Reprise. Verdade. Woody Allen.Barcelona. Fim. Outro.

Paula nunca soube fazer. Paula mandou Henrique embora. On her way. A louca. A possuída. Maria Helena. Exu. Anhanguera. Controladora. Ciumenta. Nada a perder.

Henrique devolveu as chaves. Paula trocou as fechaduras. E a armadura. Não quer outros fins. O outro sofre demais.

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Das coisas que melhoram com o tempo

tempo.jpgAndreza Taglietti

O círculo íntimo de amizades. O café coado. O café gelado. O David Beckham. A Michelle Obama. O silêncio. A respiração. A aceitação. A escuta generosa. Os (re)começos. O centro do peito. Bem lá no centrão do peito mesmo. A oração da Bethânia. Eu e eles. O almoço do domingo. O não-conflito. O abraço. O ombro. O colo. O carinho. O silêncio. O Aliócha Karamázov. O silêncio. O beijo. Os beijos. O silêncio. A simplicidade. A respiração. A Capitu. A legião urbana. O Spotify. O silêncio. As janelas abertas de manhã. A respiração. O mês de setembro. O sofá da sala. O sexo. A respiração. O domingo (de novo). O silêncio. O Murakami. A armação dos novos óculos. Com a idade, o grau estabiliza. Será, doutor? Aquele antigo show do R.E.M. A Champions League. A bicicleta. O silêncio. O papo com a dona Teresa, do primeiro andar. A relação com o corpo (né, ciático?). A mala da viagem. A respiração. O caminho para o desconhecido. O retorno. O silêncio. O forró. A Tarsila do Amaral. A coleção de havaianas. As janelas abertas à tarde. A respiração. O box 10 da Dr. Arnaldo. O Bozo. A Laura Cardoso. A vida de Antonia. A observação da natureza. A amora-presente. As agulhas. A acupuntura. As tatuagens. O tatuador. A tatuadora. O fogo. A respiração. O divã. Rir de si mesmo. Talvez gargalhar. Rir do outro. E com o outro. Os memes. A concentração. O silêncio. A Scarlett Johansson e o Bill Murray em Encontros e Desencontros. More than this. A linha verde do metrô. O Depeche Mode. A respiração. A terça-feira no parque Villa-Lobos. A pimenta. A conversa com Raimundo. Ele cuida das plantas do condomínio. O açafrão. O gosto do perdão. E o gosto pelo perdão. O movimento do bambu. O silêncio. A respiração. Os ex-amores. O espelho. As janelas abertas à noite. A Meryl Streep. O Netflix. Que rima com Matrix. Que também melhora com o tempo. O alongamento. A respiração. O silêncio. O reconhecimento das emoções. O Raul Seixas. O diálogo com a infância. E com a criança. A identificação dos medos. A (brutal) honestidade. A conversa (e a trégua?) com os esqueletos nos armários. Embaixo da cama. Na vida. Os karaokês. O silêncio. As evidências. Pra que viver fingindo se eu não posso enganar meu coraçãaaao? O silêncio. Os aniversários. O cabeleireiro. A esteticista. A Serra da Cantareira. A dança das lágrimas (chorar também é fundamental, caro poeta). A segurança nas escolhas. A relação com a natureza. Comer, rezar e amar. O desapego. A intimidade com a morte. O silêncio. A respiração. As janelas abertas novamente. A respiração. E nós. Nós melhoramos com o tempo, não acha? Em silêncio.

Crédito da foto: Uros Jovicic

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