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Janeiro

*Andreza Taglietti

 

A chuva que ameaça,

A chuva que descompassa,

A chuva que faz pirraça,

Chuva, não perca sua graça;

Chuva, não maltrata quem tá na praça;

Chuva, seja água, não desgraça;

Chuva, seja alma, somos vidraça;

Chuva, apenas nos refaça

 

 

Crédito da foto: Ryoji Iwata

ryoji-iwata-7D4KybyRgyk-unsplash

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Você me perdoa?

marcelo jan2020

*Andreza Taglietti

Eu tinha brigado com ele. Com ele, vocês conhecem, o Marcelo. Mas ele não sabe disso – que eu tinha brigado com ele. Ele havia me enganado, me iludido.  Acreditei que realmente a gente podia largar tudo pra se casar num domingo. Não, eu não ia casar com ele, com o Marcelo. Mas o Marcelo fez parte de parte da minha história, então sobrou pra ele. Pobre Marcelo.

Pobre de mim, que fiquei anos sem o Marcelo. Sem querer falar ou ouvir o nome dele. Não podia escutar sua voz, nem ver fotos. Evitava o Marcelo por todos os lados. Doía entrar em contato com aquela dor. Como doía. Naquela época, o Marcelo tinha razão, a gente é feito pra acabar. Ele foi sem data pra voltar.

Mas ontem ele voltou. Ou eu voltei. Sim, voltei pra ele. Pro Marcelo. Demorou. Uma vida guardada e empoeirada no armário. Mofo. Escuridão. Isolamento. Micro-oxigenação. Produzi e alimentei tristeza. Depois congelei. Deu hipotermia. A UTI era mais quente e acolhedora do que qualquer parte de mim.

Precisei de coragem pra voltar pro Marcelo. Mas, gente, eu não aguentava mais ficar longe dele. Sim, do Marcelo. O que me fez voltar? Um dia ele disse – talvez eu consiga superar o temor da transformação. Mas, cá entre nós, se ele não tivesse dito nada, eu teria voltado pra ele mesmo assim. Marcelo é imensidão. De sensibilidade. De beleza. De pureza. De possibilidades. De potência. De pulsação. De sonoridade. De generosidade. De calor. De Luz. De cor. Fiz as pazes comigo. Fiz as pazes com ele. E  ontem fui presenteada com essa imensidão chamada Marcelo.  Mas faltou perguntar. Marcelo, você me perdoa?

*Crédito da foto: Jace & Afsoon

Dedico esse texto aos outros corações que estiveram comigo ontem, no show do Marcelo Jeneci, no Sesc Vila Mariana. E, claro, dedico ao Jeneci. 

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Subtração

feliperizo-co-heart-made-327584-unsplash

Subtração

*Andreza Taglietti

Ela, cigarro

Ela, relógio

Ela, Gardel

Ele, oi

Ela, oi

Ela, sunglasses

Ele, suspensório

Eles, o clássico

Gol

Ela, banheiro

Ele, celular

Eles, cardápio

Ela, banheiro, de novo

Ele, calçada-cigarro-celular-e-ajeitadinha-no-cabelo

Gol

Ele, molho, pimenta

Na empanada, o nada

Ela, ela, ela…cadê ela?

Ela, dança

Ele cansa

Ele, a conta

Ela, cadê?

Eu, sábado

Ele, sábado

Nós, sábado

Ela, cadê?

 

Crédito da foto: Felipe Rizo

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Sequestro

*Andreza Taglietti

As reticências
A urgência
A eloquência
A cadência
A tangência
A resistência
A impermanência
As reticências

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Em quatro rodas

Andreza Taglietti

O affair metropolitano. No uber da noite.  Trajeto curto. Temperatura alta. Alta demais. Ebulição. O (mesmo) affair metropolitano. No uber da manhã. Uber pool. Eu, ele, honestidade, afeto e poesia. Entre um radar e outro. Ali na Dr. Arnaldo, na altura do viaduto da Sumaré. Lembrei da Zélia Duncan. A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu. Por favor, Senhor Waze, qual o caminho mais longo? Não quero finalizar essa viagem, não. Sexta-feira treze. Vida que segue. Pro sentido paulista.

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Dentro ou fora

Andreza Taglietti

Às vezes eu acho que vai chegar uma mensagem dele. Só às vezes.

Às vezes eu acho que o barulho da maçaneta ainda é a vida a dois.

Às vezes eu durmo só do lado direito da cama.

Às vezes compro o tipo de arroz favorito dele, para ele não fazer aquele risoto dos deuses.

Às vezes coloco duas toalhas para o nosso não-banho.

Às vezes sou os números dele. O telefone. A placa do carro. O CEP. A data de nascimento. Não sei informar o atual estado civil.

Às vezes ele está tão dentro de mim. Às vezes tão fora. Às vezes dentro ou fora é o que menos importa.

Às vezes o Google (e só o Google) me ajuda a decidir nosso próximo destino.

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É crônico 

Andreza Taglietti

Paula se despedia. Paula não queria. Paula já sabia. 

Já reconhecia os sintomas. A garganta. Nó.Engasgo. Mãos que não se davam. Mas se acorrentavam. Prisão. Algemas. O olhar de reprovação. Raivinha. O enjoo do perfume. Náusea. Repulsão. Buquê que vira ce-cê. Sândalo que vira catinga. Jasmim que vira gambá.

Abraço-sufoco. E um colo quente demais para o coração de Paula. Tomara que a gente não possa se ver hoje. A prece da monotonia. A prece da saturação. Não é possível. Tudo de novo. Reprise. Verdade. Talvez nunca tenha sabido amar.

Saciedade. Lassidão. Insipidez. Mortificação. Tédio. Reprise. Verdade. Descobri que não te amo mais. Um bom jeito de começar? Ou de terminar? Paula precisava ver o filme de novo. Como Cristina fez pra deixar Maria Elena e Juan Antonio mesmo? Vamos lá. Era fácil. Cristina não estava mais feliz. Paula também não estava mais feliz. Reprise. Verdade. Woody Allen.Barcelona. Fim. Outro.

Paula nunca soube fazer. Paula mandou Henrique embora. On her way. A louca. A possuída. Maria Helena. Exu. Anhanguera. Controladora. Ciumenta. Nada a perder.

Henrique devolveu as chaves. Paula trocou as fechaduras. E a armadura. Não quer outros fins. O outro sofre demais.

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