O presente de viver no presente

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Andreza Taglietti

Moça, você pode pegar a bola pra gente? Cansada dos pés dos meninos, em um ato de rebeldia, ela quis voar. Ultrapassou o alambrado da quadra, mas não sustentou seu voo. Cento e oitenta graus. Chão. Pontaria. Bem em cima da bandeira do Brasil, lindamente grafitada no asfalto. Cena de uma tarde que nós só testemunhamos (e participamos) quando estamos de férias ou de folga, porque sempre estamos-na-correria-com-pressa-atrasados-distraídos-ausentes. Ou quando somos crianças. Em poucos segundos, no papel de gandula-quarentona e interagindo com os impacientes jogadores mirins, eu estava num túnel do tempo, ali pelos anos oitenta-noventa.

Lá estava ele. O passado e o hábito de romantizá-lo. De endeusar épocas, datas festivas e pessoas. “Quando pensamos no passado são as coisas bonitas que escolhemos sempre. Queremos acreditar que era tudo assim”, li no Conto da Aia, de Margaret Atwood. Amamos amar a nostalgia. Herdamos dramas e enredos que não são nossos.

A cena da bola e o passado. O nosso quintal era divertidamente dominado pelo Buck, nosso pastor alemão que tinha um ponto fraco: um amor incondicional por objetos que caíam ou deixávamos por ali (as inúmeras camisas e toalhas no varal, por exemplo). Ele agarrava com os dentes e não havia negociação. Um desafio para nós e para os meninos da minha rua que ficavam desolados quando Buck, exercendo sua função de goleiro, agarrava amorosamente as bolas (sim, no plural, porque ele furou muitas, de diferentes modalidades – vôlei, futebol etc). E Buck tinha outra fraqueza – não gostava de Copa do Mundo. Nada contra o Zagallo ou contra os argentinos, garanto. Os fogos de artifício o deixavam apavorado. A cada gol, um show de contorcionismo do nosso querido e assustado animal de estimação que assistia aos jogos conosco.

Ao pegar o caminho de volta no túnel para 2018, lembrei de outros cachorros, de outras casas que morei (não tantas mudanças quanto minha amiga Priscylla, claro), da minha rouquidão no tetra, das comemorações do penta. E, claro, dos 7 a 1 em 2014. Escalei mentalmente e rapidamente alguns jogadores numa seleção só, sem me importar com o ano e com a posição em campo: Cafu, Rivaldo, Zico, Taffarel, Sócrates, Bebeto, Ronaldo. E Shakira no meu Spotify. Incorporei a diva colombiana. Waka, waka, êê. Fiquei felizona com essa grande festa que organizei mentalmente. Romantizei meu passado, admito. Mas, sabe, eu gosto muito das coisas como elas são hoje. É um presente viver no presente. É um presente estar presente. É um presente ver mais uma Copa do Mundo.

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