O presente de viver no presente

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Andreza Taglietti

Moça, você pode pegar a bola pra gente? Cansada dos pés dos meninos, em um ato de rebeldia, ela quis voar. Ultrapassou o alambrado da quadra, mas não sustentou seu voo. Cento e oitenta graus. Chão. Pontaria. Bem em cima da bandeira do Brasil, lindamente grafitada no asfalto. Cena de uma tarde que nós só testemunhamos (e participamos) quando estamos de férias ou de folga, porque sempre estamos-na-correria-com-pressa-atrasados-distraídos-ausentes. Ou quando somos crianças. Em poucos segundos, no papel de gandula-quarentona e interagindo com os impacientes jogadores mirins, eu estava num túnel do tempo.

Tivemos uma infância especial, certo? Que época boa. Bons eram aqueles tempos que não voltam mais. Ah, como nossa família era mais unida. Os amigos se encontravam mais. Bastávamos estar juntos e tudo ficava bem. Éramos obedientes e compreensivos. Decorar a tabuada e conjugar os verbos eram mais do que nossas obrigações. Não tínhamos do que reclamar. Será?

Qual é a nossa real relação com o nosso passado? Evitar entrar em contato com ele nos paralisa e não nos permite viver nosso presente. Temos o hábito de romantizá-lo; de endeusar épocas, datas festivas e pessoas. Amamos amar a nostalgia. E também alimentar o rancor de situações não-resolvidas, do que não foi perdoado. Não conseguimos enterrar familiares (classificados entre vilões e super-heróis), artistas “insubstituíveis”, seleções “imbatíveis”, receitas culinárias “incomparáveis”, amores “inesquecíveis”. Não nos desapegamos dos “clássicos” da música, do cinema, das artes em geral.

Nascemos e crescemos cercados por imposições de histórias, hábitos, preferências, tradições, ideologias. Herdamos dramas e enredos que não são nossos. E nos acorrentamos em crenças que muitas vezes nos levaram (e nos levam) a criar e alimentar uma lealdade ao que não nos pertence mais, do que não queremos passar adiante, do que não está na nossa natureza.  Não há nada de errado em filtrar, avaliar e querer interromper esse ciclo. Talvez o caminho seja outro – mudar, inventar, inovar. Renascer. E tá tudo bem.

Isso não significa olhar para o passado de forma indiferente e fria. Mas aceitá-lo com suas fragilidades e seguir adiante é ter a oportunidade de fazer diferente, de optar por viver com mais espontaneidade, liberdade, honestidade, leveza, criatividade e coragem. Usar uma lupa para enxergar nossa história é reconhecer nossos medos (herdados ou criados por nós mesmos) e identificar nossas vulnerabilidades, nossas kriptonitas – elas existem em nós e no nosso entorno. Em todos. Nossos familiares, nossas professoras, nossos mentores, nosso ator favorito, nossa cantora predileta, nossos ídolos do esporte etc. Afinal, somos assim, seres comuns – vulneráveis, reais e imperfeitos.

Retornando ao dia da minha atuação como gandula e no exercício do túnel do tempo, a cena da bola me levou a meados dos anos 90. O nosso quintal era divertidamente dominado pelo Buck, nosso pastor alemão que tinha um ponto fraco: um amor incondicional por objetos que caíam ou deixávamos por ali (as inúmeras camisas e toalhas no varal, por exemplo). Ele agarrava com os dentes e não havia negociação. Um desafio para nós e para os meninos da minha rua que ficavam desolados quando Buck, exercendo sua função de goleiro, agarrava amorosamente as bolas (sim, no plural, porque ele furou muitas, de diferentes modalidades – vôlei, futebol etc). E Buck tinha outra fraqueza – não gostava de Copa do Mundo. Nada contra o Zagallo ou contra os argentinos, garanto. Os fogos de artifício o deixavam apavorado. A cada gol, um show de contorcionismo do nosso querido e assustado animal de estimação que assistia aos jogos conosco.

Ao pegar o caminho de volta no túnel para 2018, lembrei de outros cachorros, de outras casas que morei (não tantas mudanças quanto minha amiga Priscylla, claro), da minha rouquidão no tetra, das comemorações do penta. E, claro, dos 7 a 1 em 2014. Escalei mentalmente e rapidamente alguns jogadores numa seleção só, sem me importar com o ano e com a posição em campo: Cafu, Rivaldo, Zico, Taffarel, Sócrates, Bebeto, Ronaldo. E Shakira no meu Spotify. Incorporei a diva colombiana. Waka, waka, êê. Fiquei felizona com essa grande festa que organizei mentalmente. Romantizei meu passado, admito. Mas, sabe, eu gosto muito das coisas como elas são hoje. É um presente viver no presente. É um presente estar presente. É um presente ver mais uma Copa do Mundo.

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