Cheiro de peixe

por Andreza Taglietti

Era o cheiro de peixe. Embrulhava o estômago de Antonia. Inquietações. Fraqueza. Intolerância. Solidão. Penetravam nas narinas. Acendeu o abajur índigo. Da cor da flor do linho, disse o vendedor da loja da Consolação. Insônia. Escolheu Kafka e os sonhos intranquilos. Mas teve medo de acordar inseto. Inseto sem melodia. Sem magia. Sem fantasia. Paúra de encontrar maçãs apodrecendo nas suas costas. Sentiu saudades do tempo em que a única maçã-vilã-que-temia era aquela dos contos de fada.

Antonia precisava. Precisava, precisava, precisava. To do list. Lavar os pratos. Limpar o banheiro. Escovar o carpete. Tirar as cortinas. Abrir as janelas. Ventilação. Luz. Sol: dignidade aos objetos da casa. Não podia esquecer de organizar as correspondências. Não abria todas de uma vez. Uma por dia. Um capítulo por dia. Uma conta pra pagar. Um capítulo importante no-mundo-sem-melodia de Antonia. Um panfleto com as promoções do supermercado Bom Vizinho. Vida na esquina. Nas prateleiras. Aviso de preços baixos na Pharmaplus. Não-morte na farmácia. Ela precisava comer, se nutrir, arrotar, peidar, cagar, se limpar, assoar o nariz, se cuidar, tomar banho, se depilar, cortar as unhas, arrancar os pelos das narinas. Aquelas que inalavam o cheiro de peixe.

Obrigada, disse ela ao caixa do supermercado. Quarta-feira era dia de afeto. Não, não era dia de feijoada da Dona Iara. Era dia de afeto. Domingo também. Feira na rua Firmino Arruda. Dia de encher o carrinho. De pastel com recheio de benquerença. De autoestima. De caldo de cana com palavras de mel. Que mulher que não volta da feira com o carrinho cheio de autoestima? Uma banana, por favor. Um papaia pequeno. Um limão. Um pé de alface. Gengibre. Hortelã. Pepino. Tentativa de se desintoxicar do cheiro do peixe. E de tudo mais. De vez em quando Antonia pedia tudo em dobro. Guloseimas, gulodices. Sustento do espírito. Pagava caro pra levar a autoestima no carrinho. Maçã, não. Lembrava Kafka. Preferia as laranjas e as metades. Gostava de Fabio Junior. Ele costumava acompanhá-la nos passeios.

Antonia estava cansada. Astigmatismo. Da vista. Da vida. Mas o cansaço traz mensagens. É o pombo-correio dos fadigados. É anabolizante. É esteroide. Ganho de musculatura. Antonia abriu um livro. Ecfonema. Foi buscar no dicionário: Súbita elevação da voz em razão de surpresa ou fato comovente, e que se traduz em exclamações e frases fragmentárias. Antonia precisava de ecfonemas. Precisava, precisava, precisava. Caralho, o cheiro de peixe. De novo.

 

1 Comentário

Filed under Andreza Taglietti, autores

One response to “Cheiro de peixe

  1. monica

    antonia, uma pessoa boa de se ler no texto da andreza! beijo pra elas.

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