Quarenta e oito horas

48 horas

Andreza Taglietti

Meu caro,

Sempre dizem que eu chego sem avisar. Não é verdade. Tenho bons modos e sou educada. Envio esta carta para dizer que passarei por aí em dois dias. Esteja pronto em 48 horas – a hora da sua partida. É tempo suficiente para se despedir, não acha?

Comece por Rita. Deixe que sua companheira lhe faça carinho e lhe dê aquele beijo na testa. Será o penúltimo. O último beijo será em seu ataúde.  Lembre-se. Ela abotoará seu terno preto e sua camisa branca, fechará seu zíper, ajeitará seu cabelo que insistirá em chamar de prateado, como as estrelas. Mais uma vez. E pela última vez.

Não se esqueça de Mirtes. Ela sempre te deu trabalho, mas ela só tinha você. Lembra quando ela te ligou da delegacia, presa por desacatar o policial numa blitz? E aquele forrobodó que fez na festa do teu casamento? E aquela fase do cabelo vermelho? Não deixe de agradecer à sua única irmã por um pouco de gracejo e de desassossego que deu à sua vida – quase um samba de uma nota só. E até “o samba de uma nota só” carece descompassar de vez em quando.

Paula, Nina e Luísa. Elas chegaram à família Ribeiro Silva nesta ordem, mas você pode escolher de qual filha se despedirá primeiro. Não se preocupe em disfarçar, elas nunca tiveram a fantasia do pai principesco. Presenciaram muitos momentos em que sua agudeza e sua frustração contaminaram o número 81 da rua Belarmino de Matos. O filho homem que nunca veio; a promoção que não aconteceu; as tentativas de justificar as traições descobertas. E não julgue Luísa por não ter casado e não ter lhe dado netos. Ela lembra Mirtes, não?

Deixe todas as suas vontades em vida – o apartamento no Guarujá, o sítio em Atibaia, a Caravan (a relíquia da família), as economias, a coleção de selos do Vaticano, os vinis dos Beatles. E os pôsteres da Seleção Brasileira – aqueles que você guardava para o varão que nunca chegou. Já aviso que ninguém vai se interessar pelos troféus de melhor funcionário que você ganhou por tantos anos consecutivos no Banco do Brasil. Muito menos por aquela coleção do Paulo Coelho. Sebo nenhum vai querer, não perca seu tempo.

Você não terá tempo de visitar Sertãozinho. A cidade das suas primeiras festas de Natal; dos primeiros aniversários; dos passeios de bicicleta na Praça 21 de Abril, enquanto os sinos da Igreja Matriz tocavam, avisando que já anoitecia e era hora de voltar pra casa. Mas a feira da rua Terezina, aí no seu bairro mesmo, pode ser um bom lugar para você se despedir dos cheiros e dos sabores da infância. Fruta tem gosto de travessura – da guerra de tomates; da árvore que não se podia subir; das goiabas do Chico Bento; da uva amassada com o pé pra virar geleia, suco ou vinho.

E, se der tempo, escolha um filme preferido e o assista até não poder mais. Aqui não tem TV a cabo nem Internet.  Dá um cagaço, né? A propósito, você sabe rezar?

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