O Coveiro e a Exumação

Fernanda de Castro Lima

Dava até para ver a coroa dourada no dente da velha. O grito saiu alto e forte para quem não devia ter tanto fôlego. As rugas esticaram de um jeito que ela remoçou anos em segundos, mas só até ela cair nos braços do filho. Aí, com o rosto relaxado deu pra ver que a velha era bem velha mesmo. Quem estava lá não sabia se acudia a velha ou se procurava o morto. Que confusão!

“O morto sumiu! O morto sumiu!”, alguém falou quando abriu o caixão. Correria de um lado, correria do outro. Foi um festival de mão na boca, na cabeça. Até na bunda da mulher gostosa uma mão passeou que eu vi, pra depois levar uma na cara. O bom é que se não tem morto, se a velha morre, já tem caixão. Mas a velha não morreu, então precisava do morto.

Nunca vi tanta gente em exumação!

O moleque sardento de boné na cabeça e remela no olho cutucava o pai, a mãe, e qualquer um que passasse na frente. Mas com o morto sumido quem vai dar trela praquela criança desajeitada e sem graça? “Que vá chutar pedrinha!”

“Onde foi parar? O que aconteceu?”, um perguntou. “Evaporou, desintegrou”, o outro respondeu. “Ô, coveiro. Ô, coveiro. Como é que isso aconteceu?”.

Sei não, moço. Vai ver que o morto cansou de ser morto e foi vagar por aí.

O dedinho gorducho com a ponta vermelha do menino encostou na barriga do primo. Tomou um tabefe bem dado porque ele achou que era bicho.

“Chama a polícia que isso é caso de roubo”. “Mas que mundo é esse que até de morto tem ladrão?”

A tia sentiu alguém puxando o casaco. “Mas que garoto mal-educado! Vai catar coquinho”.

A velha já estava vermelha de tanto calor. “Um copo d’água pra ela, por favor”.

A polícia chegou e todo mundo teve de falar. Nem o moleque escapou. “Você viu alguma coisa?”, a polícia perguntou.

De cabeça baixa, o pirralho tirou o dedo do nariz e apontou pro túmulo ao lado, que aquele sim tinha o nome do avô. Todo mundo fez silêncio e depois falou: “Menino tonto! Por que não contou? Ai, que confusão!”.

Depois de achado o morto, finalmente a exumação. Guardei os restos do homem numa urna pequena diante da família inteira. A velha chorou e depois saiu, puxando o garoto pela mão. E eu continuei lá no cemitério, sem saber onde estava o morto do primeiro caixão.

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