Gato Preto

Fernanda de Castro Lima

Sentei-me num banco, cigarros se sucediam. Uma porção de lembranças.

Palavras não ditas ou tatuadas tortas inquietam a alma e forçam uma tragada até os pulmões não suportarem mais.

O toque áspero da mão calejada no seio enrijecido. Nas coxas úmidas de desejo. No coração parado no tempo.

Um gato preto passou teatral como só os felinos sabem e deitou aqui, embaixo de mim. Tenho pavor a gato preto porque traz má sorte. Se é que sorte tem como ser má. Você adorava o gato. Talvez só para me provocar.

Os passeios de carro para tomar vento no rosto, sem saber aonde. As tardes de domingo desperdiçadas num sono sem culpa dando nós com os pés. Discussões intermináveis por motivos que nem lembrávamos quais. Filmes de ação, ficção, e os água com açúcar só para me agradar. Devia ter visto os de terror, você sempre quis. Nem que fosse desculpa para ficar agarrados. Nunca assisti.

Teve aquela vez que bebemos e dançamos na praia. Os meus pés machucaram e continuamos a dançar. Uma música que não se ouvia, mas a gente sabia que estava lá. Teve também a morte da sua mãe. Não gostava dela, mas eu gostava de você.

A falta de dinheiro fez quase faltar o amor. As brigas eram tantas. Pelo vestido vermelho que você pensava que eu tinha devolvido. Nem serve mais. E continua lá, no canto do armário. Pelo cabelo diferente que você nunca notou, pelo parafuso que você não apertou, pela batida que eu provoquei, a comida que queimei, a resistência que você não trocou. Tive que aprender.

O gato se mexeu e eu senti o rabo encostar na minha perna de três semanas sem depilar. E eu visto uma saia assim mesmo. A azul, lembra? Traguei meu cigarro em vez de gritar. Abafo meu medo, minha raiva. Se eu tivesse forças matava o maldito do gato. Posso jurar que isso é coisa sua.

Ainda sinto o cheiro. Da pele, dos cabelos, do sexo. O gosto da boca, do chocolate na ponta do dedo para me excitar. Do melhor sorvete do mundo às segundas-feiras, das vitórias em cima do seu Palmeiras, da vingança sobre a mulher que quis tomar de você de mim.

A viagem em que ganhei aliança e quando você a pediu de volta, quase no mesmo lugar. O sorriso debochando das palavras tolas, dos senãos mal explicados, do ronco que me despertava no meio da noite, dos abraços de me sufocar.

O sangue que vi escorrer e que preferia ser cega. O grito que ouvi e queria ser surda. A dor que senti e que desejo estar morta. No seu lugar.

Acendi o último cigarro do maço.

E a culpa é do gato preto. A sorte seria boa se não fosse por ele.

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Dezembro 4, 2013 · 10:37 pm

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