Vestidos choram

Vestidos choram

Andreza Taglietti

“Será que dá tempo de fazer xixi? Que burra. Devia ter pensado nisso antes de colocar essa roupa. Que saco, viu. Não faz sentido usar toda essa parafernália pra não ficar nem uma hora no palco”.  Sentada, de pernas cruzadas, Cecília olhava para sua sapatilha rosa, rodopiando o seu pé direito em sentido horário, anti-horário, horário, anti-horário.

Já tinha aquecido seu corpo. Não quis se olhar no espelho, se sentiria insegura demais. Levantou. Ajeitou as flores do cóque do cabelo, as mangas do collant (rosa) tamanho P e o vestido (rosa) de chiffon, curto e de pontas irregulares. Deu uma olhada na meia calça (rosa) pra ver se não estava desfiada.  “Que maravilha, a versão Barbie Bailarina entrará em cena”.

Quis esquecer a bexiga cheia, brincou com os passos básicos – plié, demi plié, relevé.  E pensava na mãe. A mãe Perfeição. A mãe Precisão. A mãe Vaidade. Entrou no palco. Flutuou. Em transe, rodopiou. Muitas e muitas vezes. Com pressa. Porque não via a hora de tirar aquela fantasia de moça meiga e delicada.

Era a vez da festa de 15 anos. O vestido tinha mangas bufantes, numa cor que Izilda adorava chamar de champanhe. Algumas pérolas da família estavam espalhadas pelo pescoço, nas orelhas e no pulso da debutante. O vestido e as pérolas faziam parte do kit santidade. O cabelo foi escovado até a cintura – a mãe não deixava cortar aquele exagero. O sapato era dourado e alto. Apertava os pés. E a alma. A maquiagem, em tons de socorro. Dançou com Rogério (o pai), com Carlos (o irmão), com Vicente (o avô). Desfilou e sorriu para todos que eram coadjuvantes na história que a mãe construía para a filha – a protagonista, a atriz principal.

A filha de Izilda conseguiu dizer não à Medicina, mas não se livrou do baile de formatura. E do vestido. De novo. Queria preto. A mãe, azul. Azul combinaria com a roupa de Izilda, com a gravata de Rogério e com as joias da família. Era a vez do ouro branco com diamantes e cristais de rocha.  Preferia sua parte em dinheiro. Preferia ter viajado com a turma para Fernando de Noronha. Fez sua parte. De novo. E prometeu – seria a última vez.

O telefone tocou na casa da família Lopes de Macedo. Era Cecilia. “Estou voltando para o Brasil, vou me casar, chegarei ao país um dia antes da cerimônia”. Já tinha reservado o dia (gostava do outono), e escolhido as flores para a decoração (girassóis, como na Toscana).  A festa aconteceria no sítio de um amigo, Gustavo, que também celebraria o enlace. Izilda desligou o telefone. Ligou para as irmãs Beth e Lúcia. Contou para a mãe, Ana. As mulheres da família quiseram fazer uma surpresa para a noiva. Encomendaram o vestido da cerimônia.

Cecilia chegou. Colocou as malas em seu antigo quarto, na parte de cima da residência. Abriu o armário. Cheirava os dez anos que ela tinha ficado fora de casa.  Ainda havia algumas fotos de infância na parte de dentro das portas. Das suas apresentações de balé, das festas de Natal. Sentou numa minibanqueta que ficava dentro do armário. Ainda cabia lá. Vantagem dos anos de dança. Olhou para cima, para os lados. “Sabia que lá em Portugal te chamam de guarda-vestidos? Lembra quantas vezes quis me trancar aqui e nunca mais sair?”.

Tomou um banho, colocou uma calça jeans, uma regata branca, chinelos e desceu até a sala, onde esperavam as tias Beth e Lúcia, o pai Rogério, o irmão Carlos com sua esposa Janaina. As primas Sandra, Valéria e Roberta. A mãe Izilda e a vó Ana . “O vô Vicente faz falta”.

– Você quer nos matar de ansiedade, Cecilia? Conta tudo, menina.

– Calma, tia Beth.

– Quem é essa pessoa? É de qual lugar da Europa? Ou é do Brasil? Conhecemos a família?

– Não, vocês não conhecem, tia Lúcia.

– Temos uma surpresa pra você, abra. É um presente das mulheres da nossa família.

– Obrigada, vó.

Cecilia abriu a caixa tão branca e tão acetinada quanto o vestido que estava dentro.  Saia longa até o pé, poucos bordados, tomara que caia. O cabelo curto valorizaria os ombros largos na medida certa, postura que ganhou com os anos de balé. Devia isso à sua mãe.

– Experimenta, estamos curiosas pra saber como vai ficar em você.

– Vou subir e já volto, vó.

Cecilia caminhou até a escada. Passos firmes e precisos, como no palco. Subiu com o vestido nas mãos. Entrou no quarto, pegou uma tesoura. Passou a vida com vontade de rasgar todos os vestidos que foi obrigada a usar.  Um retalho para cada lembrança.  As apresentações de balé, a festa de quinze anos, o baile de formatura e até momentos que ela nem lembrava – qual teria sido seu vestido de batismo? E do batismo do seu irmão? E da primeira comunhão?

Desceu as escadas. De calça preta de alfaiataria, camisa branca de seda. Sapato preto. Salto baixo e confortável, como andava a sua alma.

– Eu me casarei assim.

– Como “assim”?

– Assim, de calça preta e camisa branca, vó.

– Isso é pessoal, não é? É pra me matar de vergonha na frente da nossa família e dos nossos amigos, não é?

– Não, mãe, não é pessoal.  Eu me casarei com Natália. E ela usará um vestido.

Izilda se trancou no armário do quarto da filha. Abraçada ao vestido retalhado. E os dois choraram. Ninguém da família Lopes de Macedo apareceu na cerimônia de Cecilia. Mas isso ela já sabia. E não chorou.

Deixe um comentário

Filed under Andreza Taglietti, autores

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s