A culpa é da Madonna

A culpa é da Madonna

Andreza Taglietti

Já estava ali ao meu lado quando acordei. Os enfermeiros trocavam as fraldas dele. Tinha cagado sem perceber. Depois da higiene, partiram para tubos, morfina, monitor cardíaco, bombas infusoras. Medicamentos nas veias. Escaras. Hemorragia. Um, dois, três. Maca. Ajuste da cama. Um, dois, três. Cama. Cagou de novo. Troca de fraldas. De novo.

Os remédios me dominavam. Não me deixavam entender a situação dele. Meus olhos não abriam. A curiosidade fazia meus ouvidos trabalharem em dobro. Escutava um nome – Roberto. Não ouvi netos, filhos, irmãos, irmãs. As chegadas e as partidas de Roberto me davam a noção do tempo. Três da tarde, Roberto. Dez da manhã, Roberto. Meio-dia, Roberto. Meus olhos viam o vulto Roberto – um boneco de porcelana de cabelos da cor da jabuticaba. Era o que eu conseguia enxergar.

Os médicos disseram a Roberto que em pouco tempo ele acordaria. A espera de Roberto me fez companhia. A fala dele e a sedação me causavam alguns delírios  – qual era o mundo da respiração artificial mesmo? Os doentes lá de fora tinham oxigênio, e eu não tinha, era isso? As substâncias que me injetavam ali davam mais barato do que as drogas das ruas? A cor do cabelo de Roberto era jabuticaba mesmo?

E foi Roberto – o Beto – que contou sobre Carlão, meu vizinho-pugilista-peso-pesado-do-Cariri. Com a paternidade em branco na certidão de nascimento, o rebento de dona Guiomar um dia se fez pronto para deixar aquela casa. Partiu de ônibus, com a foto do cachorro nas mãos. Conheceu o mar, a bebida, as prostitutas, os garotos de programa. Nunca mandou notícias para a mãe.

Certa temporada arrumou um bico de motorista de ônibus para excursão de turistas. Conheceu Guto, lutador de boxe. Tornaram-se amigos. Guto lhe fazia alguns pedidos de vez em quando. Uma encomenda, um pagamento, um não-pagamento, uma entrega. E um desses favores levou os dois para o presídio Olavo Silveira, na Rua da Misericórdia.

A gente consegue imaginar o resto da história. Na cadeia, companheiras de cela: dedicação e disciplina. Treinos e condicionamento dos músculos ao longo da semana. Luta aos domingos. Diversão, apostas, rixas. Muitas. Desafios. Muitos também. Os dois saíram do presídio. Guto retomou sua carreira. Prêmios, reconhecimentos, viagens, cinturões. A fórmula advogado-empresário-dinheiro fez todos esquecerem o incidente. Carlão também ganhou um título – de ex-presidiário. E só. Para a vida toda.

E como ele veio parar aqui, Roberto?

Naquela segunda-feira, Carlão não encontrou o mamão na geladeira para o café da manhã. Uma fruta para cada dia. Era segunda-feira. Ele precisava do mamão. A rua São Bento estava sem luz. Devia ser o temporal ou alguma pipa nos fios. Ele precisava do mamão. As brechas nas cortinas ajudaram Carlão a pegar o guarda-chuva e juntar algumas moedas. Mas os degraus, ai, os degraus. Eles estavam ali. À meia-luz. Ele precisava do mamão.

Setenta e seis anos. Noventa quilos. Dois, cinco, oito, onze, doze, treze, quinze _chão. Não há poesia quando se cai da escada. No térreo, os dentes e o sangue saíam da boca e dos ouvidos. Ausência do lado esquerdo do rosto e de algumas costelas. Um nocaute. Carlão Calango. Ficou ali. Até o lusco-fusco. Até Beto encontrar o réptil.

Ah, você me perguntou por que estou aqui, certo, Betão-boneco-de-porcelana?

A culpa é da Madonna. Obsessão pela diva. Pegou o Sean Penn. Que inveja. Beijou (na mesma noite) a Britney Spears e a Christina Aguilera. Que delícia. Sem contar aquele clipe que ela tasca um beijo naquele Santo-Negro-Gato. Daqueles que a gente quer lá em casa pra fazer um milagre, sabe? As igrejas chiaram. E não foi em tom de prece. Valha-me Deus.

Não queria ficar como a Rita Cadillac ou a Gretchen, não. Não gosto de traseiros-luas-cheias. Nem como a Garota de Ipanema. Coisa sem graça. Para mim, o padrão é Madonna – de bunda, braços, pernas, cintura, manequim, cabelo, pele. E o que restou dessa obsessão foram quarenta quilos (ou menos); distúrbios; e cortes e recortes pelo meu corpo. Paralisia. Aberração. Paranoia. Mas essa é outra história, Roberto. Não importa. Daqui a pouco Carlão e eu teremos o mesmo peso, sabia? Dizem que a alma pesa 21 gramas.

Roberto, não desvia do assunto, não. Preciso te fazer algumas perguntas antes de partir. Quem é você? Você foi apaixonado por Carlão? Ou foi você que deu o empurrãozinho pra ele cair da escada? Ou as duas coisas? Você é o Guto? Você tinge o seu cabelo, Roberto? Qual é o tonalizante? Preto-Ébano? Tem amônia?

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