Relações líquidas, relações cítricas

Sonhei com um grande amor. Uma noite. Tão breve. Tão leve. Quatro caipirinhas para ele. Quatro caipirinhas para mim. Oito no total. Três limões em cada uma. Três-limões-vezes-oito. Vinte- e-quatro. Duas dúzias de limões. Beijos deliciosamente cítricos. Ali na Vila Madalena. E uma dose de Marçal Aquino – o amor é sexualmente transmissível*.

No sonho, ele – não, não o Marçal -, refiro-me ao meu grande amor – ele pedia desculpas por tudo. Pelo jeito tão dele de ser. Por ter que ir embora tão rápido. Por ter que dar atenção às mensagens do celular. Pela pronúncia tão irresistível e errada do meu nome. Sim, além de um amor líquido, era estrangeiro. Talvez clandestino. Quem sabe ilegal, Mano Chao.

Horas depois, mais pra madrugada, meu grande amor líquido e cítrico me disse – você precisa escrever sobre. Ponto final. Talvez eu ainda escreva sobre o-que-ele-me-pediu-para-escrever-sobre. Ou não escreva. Talvez já tenha escrito. Talvez não seja um ponto final. Talvez sejam reticências. Ojalá. Chissà. chissà, chissà.

Acordei sem ressaca. Mas senti saudades.

*Frase retirada do livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.limao izzy-gerosa-80667-unsplash.jpg

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O presente de viver no presente

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Andreza Taglietti

Moça, você pode pegar a bola pra gente? Cansada dos pés dos meninos, em um ato de rebeldia, ela quis voar. Ultrapassou o alambrado da quadra, mas não sustentou seu voo. Cento e oitenta graus. Chão. Pontaria. Bem em cima da bandeira do Brasil, lindamente grafitada no asfalto. Cena de uma tarde que nós só testemunhamos (e participamos) quando estamos de férias ou de folga, porque sempre estamos-na-correria-com-pressa-atrasados-distraídos-ausentes. Ou quando somos crianças. Em poucos segundos, no papel de gandula-quarentona e interagindo com os impacientes jogadores mirins, eu estava num túnel do tempo.

Tivemos uma infância especial, certo? Que época boa. Bons eram aqueles tempos que não voltam mais. Ah, como nossa família era mais unida. Os amigos se encontravam mais. Bastávamos estar juntos e tudo ficava bem. Éramos obedientes e compreensivos. Decorar a tabuada e conjugar os verbos eram mais do que nossas obrigações. Não tínhamos do que reclamar. Será?

Qual é a nossa real relação com o nosso passado? Evitar entrar em contato com ele nos paralisa e não nos permite viver nosso presente. Temos o hábito de romantizá-lo; de endeusar épocas, datas festivas e pessoas. Amamos amar a nostalgia. E também alimentar o rancor de situações não-resolvidas, do que não foi perdoado. Não conseguimos enterrar familiares (classificados entre vilões e super-heróis), artistas “insubstituíveis”, seleções “imbatíveis”, receitas culinárias “incomparáveis”, amores “inesquecíveis”. Não nos desapegamos dos “clássicos” da música, do cinema, das artes em geral.

Nascemos e crescemos cercados por imposições de histórias, hábitos, preferências, tradições, ideologias. Herdamos dramas e enredos que não são nossos. E nos acorrentamos em crenças que muitas vezes nos levaram (e nos levam) a criar e alimentar uma lealdade ao que não nos pertence mais, do que não queremos passar adiante, do que não está na nossa natureza.  Não há nada de errado em filtrar, avaliar e querer interromper esse ciclo. Talvez o caminho seja outro – mudar, inventar, inovar. Renascer. E tá tudo bem.

Isso não significa olhar para o passado de forma indiferente e fria. Mas aceitá-lo com suas fragilidades e seguir adiante é ter a oportunidade de fazer diferente, de optar por viver com mais espontaneidade, liberdade, honestidade, leveza, criatividade e coragem. Usar uma lupa para enxergar nossa história é reconhecer nossos medos (herdados ou criados por nós mesmos) e identificar nossas vulnerabilidades, nossas kriptonitas – elas existem em nós e no nosso entorno. Em todos. Nossos familiares, nossas professoras, nossos mentores, nosso ator favorito, nossa cantora predileta, nossos ídolos do esporte etc. Afinal, somos assim, seres comuns – vulneráveis, reais e imperfeitos.

Retornando ao dia da minha atuação como gandula e no exercício do túnel do tempo, a cena da bola me levou a meados dos anos 90. O nosso quintal era divertidamente dominado pelo Buck, nosso pastor alemão que tinha um ponto fraco: um amor incondicional por objetos que caíam ou deixávamos por ali (as inúmeras camisas e toalhas no varal, por exemplo). Ele agarrava com os dentes e não havia negociação. Um desafio para nós e para os meninos da minha rua que ficavam desolados quando Buck, exercendo sua função de goleiro, agarrava amorosamente as bolas (sim, no plural, porque ele furou muitas, de diferentes modalidades – vôlei, futebol etc). E Buck tinha outra fraqueza – não gostava de Copa do Mundo. Nada contra o Zagallo ou contra os argentinos, garanto. Os fogos de artifício o deixavam apavorado. A cada gol, um show de contorcionismo do nosso querido e assustado animal de estimação que assistia aos jogos conosco.

Ao pegar o caminho de volta no túnel para 2018, lembrei de outros cachorros, de outras casas que morei (não tantas mudanças quanto minha amiga Priscylla, claro), da minha rouquidão no tetra, das comemorações do penta. E, claro, dos 7 a 1 em 2014. Escalei mentalmente e rapidamente alguns jogadores numa seleção só, sem me importar com o ano e com a posição em campo: Cafu, Rivaldo, Zico, Taffarel, Sócrates, Bebeto, Ronaldo. E Shakira no meu Spotify. Incorporei a diva colombiana. Waka, waka, êê. Fiquei felizona com essa grande festa que organizei mentalmente. Romantizei meu passado, admito. Mas, sabe, eu gosto muito das coisas como elas são hoje. É um presente viver no presente. É um presente estar presente. É um presente ver mais uma Copa do Mundo.

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Em quatro rodas

Andreza Taglietti

O affair metropolitano. No uber da noite.  Trajeto curto. Temperatura alta. Alta demais. Ebulição. O (mesmo) affair metropolitano. No uber da manhã. Uber pool. Eu, ele, honestidade, afeto e poesia. Entre um radar e outro. Ali na Dr. Arnaldo, na altura do viaduto da Sumaré. Lembrei da Zélia Duncan. A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu. Por favor, Senhor Waze, qual o caminho mais longo? Não quero finalizar essa viagem, não. Sexta-feira treze. Vida que segue. Pro sentido paulista.

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Dentro ou fora

Andreza Taglietti

Às vezes eu acho que vai chegar uma mensagem dele. Só às vezes.

Às vezes eu acho que o barulho da maçaneta ainda é a vida a dois.

Às vezes eu durmo só do lado direito da cama.

Às vezes compro o tipo de arroz favorito dele, para ele não fazer aquele risoto dos deuses.

Às vezes coloco duas toalhas para o nosso não-banho.

Às vezes sou os números dele. O telefone. A placa do carro. O CEP. A data de nascimento. Não sei informar o atual estado civil.

Às vezes ele está tão dentro de mim. Às vezes tão fora. Às vezes dentro ou fora é o que menos importa.

Às vezes o Google (e só o Google) me ajuda a decidir nosso próximo destino.

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É crônico 

Andreza Taglietti

Paula se despedia. Paula não queria. Paula já sabia. 

Já reconhecia os sintomas. A garganta. Nó.Engasgo. Mãos que não se davam. Mas se acorrentavam. Prisão. Algemas. O olhar de reprovação. Raivinha. O enjoo do perfume. Náusea. Repulsão. Buquê que vira ce-cê. Sândalo que vira catinga. Jasmim que vira gambá.

Abraço-sufoco. E um colo quente demais para o coração de Paula. Tomara que a gente não possa se ver hoje. A prece da monotonia. A prece da saturação. Não é possível. Tudo de novo. Reprise. Verdade. Talvez nunca tenha sabido amar.

Saciedade. Lassidão. Insipidez. Mortificação. Tédio. Reprise. Verdade. Descobri que não te amo mais. Um bom jeito de começar? Ou de terminar? Paula precisava ver o filme de novo. Como Cristina fez pra deixar Maria Elena e Juan Antonio mesmo? Vamos lá. Era fácil. Cristina não estava mais feliz. Paula também não estava mais feliz. Reprise. Verdade. Woody Allen.Barcelona. Fim. Outro.

Paula nunca soube fazer. Paula mandou Henrique embora. On her way. A louca. A possuída. Maria Helena. Exu. Anhanguera. Controladora. Ciumenta. Nada a perder.

Henrique devolveu as chaves. Paula trocou as fechaduras. E a armadura. Não quer outros fins. O outro sofre demais.

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Das coisas que melhoram com o tempo

tempo.jpgAndreza Taglietti

O círculo íntimo de amizades. O café coado. O café gelado. O David Beckham. A Michelle Obama. O silêncio. A respiração. A aceitação. A escuta generosa. Os (re)começos. O centro do peito. Bem lá no centrão do peito mesmo. A oração da Bethânia. Eu e eles. O almoço do domingo. O não-conflito. O abraço. O ombro. O colo. O carinho. O silêncio. O Aliócha Karamázov. O silêncio. O beijo. Os beijos. O silêncio. A simplicidade. A respiração. A Capitu. A legião urbana. O Spotify. O silêncio. As janelas abertas de manhã. A respiração. O mês de setembro. O sofá da sala. O sexo. A respiração. O domingo (de novo). O silêncio. O Murakami. A armação dos novos óculos. Com a idade, o grau estabiliza. Será, doutor? Aquele antigo show do R.E.M. A Champions League. A bicicleta. O silêncio. O papo com a dona Teresa, do primeiro andar. A relação com o corpo (né, ciático?). A mala da viagem. A respiração. O caminho para o desconhecido. O retorno. O silêncio. O forró. A Tarsila do Amaral. A coleção de havaianas. As janelas abertas à tarde. A respiração. O box 10 da Dr. Arnaldo. O Bozo. A Laura Cardoso. A vida de Antonia. A observação da natureza. A amora-presente. As agulhas. A acupuntura. As tatuagens. O tatuador. A tatuadora. O fogo. A respiração. O divã. Rir de si mesmo. Talvez gargalhar. Rir do outro. E com o outro. Os memes. A concentração. O silêncio. A Scarlett Johansson e o Bill Murray em Encontros e Desencontros. More than this. A linha verde do metrô. O Depeche Mode. A respiração. A terça-feira no parque Villa-Lobos. A pimenta. A conversa com Raimundo. Ele cuida das plantas do condomínio. O açafrão. O gosto do perdão. E o gosto pelo perdão. O movimento do bambu. O silêncio. A respiração. Os ex-amores. O espelho. As janelas abertas à noite. A Meryl Streep. O Netflix. Que rima com Matrix. Que também melhora com o tempo. O alongamento. A respiração. O silêncio. O reconhecimento das emoções. O Raul Seixas. O diálogo com a infância. E com a criança. A identificação dos medos. A (brutal) honestidade. A conversa (e a trégua?) com os esqueletos nos armários. Embaixo da cama. Na vida. Os karaokês. O silêncio. As evidências. Pra que viver fingindo se eu não posso enganar meu coraçãaaao? O silêncio. Os aniversários. O cabeleireiro. A esteticista. A Serra da Cantareira. A dança das lágrimas (chorar também é fundamental, caro poeta). A segurança nas escolhas. A relação com a natureza. Comer, rezar e amar. O desapego. A intimidade com a morte. O silêncio. A respiração. As janelas abertas novamente. A respiração. E nós. Nós melhoramos com o tempo, não acha? Em silêncio.

Crédito da foto: Uros Jovicic

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Cheiro de peixe

por Andreza Taglietti

Era o cheiro de peixe. Embrulhava o estômago de Antonia. Inquietações. Fraqueza. Intolerância. Solidão. Penetravam nas narinas. Acendeu o abajur índigo. Da cor da flor do linho, disse o vendedor da loja da Consolação. Insônia. Escolheu Kafka e os sonhos intranquilos. Mas teve medo de acordar inseto. Inseto sem melodia. Sem magia. Sem fantasia. Paúra de encontrar maçãs apodrecendo nas suas costas. Sentiu saudades do tempo em que a única maçã-vilã-que-temia era aquela dos contos de fada.

Antonia precisava. Precisava, precisava, precisava. To do list. Lavar os pratos. Limpar o banheiro. Escovar o carpete. Tirar as cortinas. Abrir as janelas. Ventilação. Luz. Sol: dignidade aos objetos da casa. Não podia esquecer de organizar as correspondências. Não abria todas de uma vez. Uma por dia. Um capítulo por dia. Uma conta pra pagar. Um capítulo importante no-mundo-sem-melodia de Antonia. Um panfleto com as promoções do supermercado Bom Vizinho. Vida na esquina. Nas prateleiras. Aviso de preços baixos na Pharmaplus. Não-morte na farmácia. Ela precisava comer, se nutrir, arrotar, peidar, cagar, se limpar, assoar o nariz, se cuidar, tomar banho, se depilar, cortar as unhas, arrancar os pelos das narinas. Aquelas que inalavam o cheiro de peixe.

Obrigada, disse ela ao caixa do supermercado. Quarta-feira era dia de afeto. Não, não era dia de feijoada da Dona Iara. Era dia de afeto. Domingo também. Feira na rua Firmino Arruda. Dia de encher o carrinho. De pastel com recheio de benquerença. De autoestima. De caldo de cana com palavras de mel. Que mulher que não volta da feira com o carrinho cheio de autoestima? Uma banana, por favor. Um papaia pequeno. Um limão. Um pé de alface. Gengibre. Hortelã. Pepino. Tentativa de se desintoxicar do cheiro do peixe. E de tudo mais. De vez em quando Antonia pedia tudo em dobro. Guloseimas, gulodices. Sustento do espírito. Pagava caro pra levar a autoestima no carrinho. Maçã, não. Lembrava Kafka. Preferia as laranjas e as metades. Gostava de Fabio Junior. Ele costumava acompanhá-la nos passeios.

Antonia estava cansada. Astigmatismo. Da vista. Da vida. Mas o cansaço traz mensagens. É o pombo-correio dos fadigados. É anabolizante. É esteroide. Ganho de musculatura. Antonia abriu um livro. Ecfonema. Foi buscar no dicionário: Súbita elevação da voz em razão de surpresa ou fato comovente, e que se traduz em exclamações e frases fragmentárias. Antonia precisava de ecfonemas. Precisava, precisava, precisava. Caralho, o cheiro de peixe. De novo.

 

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