Janeiro

*Andreza Taglietti

 

A chuva que ameaça,

A chuva que descompassa,

A chuva que faz pirraça,

Chuva, não perca sua graça;

Chuva, não maltrata quem tá na praça;

Chuva, seja água, não desgraça;

Chuva, seja alma, somos vidraça;

Chuva, apenas nos refaça

 

 

Crédito da foto: Ryoji Iwata

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Você me perdoa?

marcelo jan2020

*Andreza Taglietti

Eu tinha brigado com ele. Com ele, vocês conhecem, o Marcelo. Mas ele não sabe disso – que eu tinha brigado com ele. Ele havia me enganado, me iludido.  Acreditei que realmente a gente podia largar tudo pra se casar num domingo. Não, eu não ia casar com ele, com o Marcelo. Mas o Marcelo fez parte de parte da minha história, então sobrou pra ele. Pobre Marcelo.

Pobre de mim, que fiquei anos sem o Marcelo. Sem querer falar ou ouvir o nome dele. Não podia escutar sua voz, nem ver fotos. Evitava o Marcelo por todos os lados. Doía entrar em contato com aquela dor. Como doía. Naquela época, o Marcelo tinha razão, a gente é feito pra acabar. Ele foi sem data pra voltar.

Mas ontem ele voltou. Ou eu voltei. Sim, voltei pra ele. Pro Marcelo. Demorou. Uma vida guardada e empoeirada no armário. Mofo. Escuridão. Isolamento. Micro-oxigenação. Produzi e alimentei tristeza. Depois congelei. Deu hipotermia. A UTI era mais quente e acolhedora do que qualquer parte de mim.

Precisei de coragem pra voltar pro Marcelo. Mas, gente, eu não aguentava mais ficar longe dele. Sim, do Marcelo. O que me fez voltar? Um dia ele disse – talvez eu consiga superar o temor da transformação. Mas, cá entre nós, se ele não tivesse dito nada, eu teria voltado pra ele mesmo assim. Marcelo é imensidão. De sensibilidade. De beleza. De pureza. De possibilidades. De potência. De pulsação. De sonoridade. De generosidade. De calor. De Luz. De cor. Fiz as pazes comigo. Fiz as pazes com ele. E  ontem fui presenteada com essa imensidão chamada Marcelo.  Mas faltou perguntar. Marcelo, você me perdoa?

*Crédito da foto: Jace & Afsoon

Dedico esse texto aos outros corações que estiveram comigo ontem, no show do Marcelo Jeneci, no Sesc Vila Mariana. E, claro, dedico ao Jeneci. 

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Subtração

feliperizo-co-heart-made-327584-unsplash

Subtração

*Andreza Taglietti

Ela, cigarro

Ela, relógio

Ela, Gardel

Ele, oi

Ela, oi

Ela, sunglasses

Ele, suspensório

Eles, o clássico

Gol

Ela, banheiro

Ele, celular

Eles, cardápio

Ela, banheiro, de novo

Ele, calçada-cigarro-celular-e-ajeitadinha-no-cabelo

Gol

Ele, molho, pimenta

Na empanada, o nada

Ela, ela, ela…cadê ela?

Ela, dança

Ele cansa

Ele, a conta

Ela, cadê?

Eu, sábado

Ele, sábado

Nós, sábado

Ela, cadê?

 

Crédito da foto: Felipe Rizo

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Sequestro

*Andreza Taglietti

As reticências
A urgência
A eloquência
A cadência
A tangência
A resistência
A impermanência
As reticências

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Em quatro rodas

Andreza Taglietti

O affair metropolitano. No uber da noite.  Trajeto curto. Temperatura alta. Alta demais. Ebulição. O (mesmo) affair metropolitano. No uber da manhã. Uber pool. Eu, ele, honestidade, afeto e poesia. Entre um radar e outro. Ali na Dr. Arnaldo, na altura do viaduto da Sumaré. Lembrei da Zélia Duncan. A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu. Por favor, Senhor Waze, qual o caminho mais longo? Não quero finalizar essa viagem, não. Sexta-feira treze. Vida que segue. Pro sentido paulista.

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Dentro ou fora

Andreza Taglietti

Às vezes eu acho que vai chegar uma mensagem dele. Só às vezes.

Às vezes eu acho que o barulho da maçaneta ainda é a vida a dois.

Às vezes eu durmo só do lado direito da cama.

Às vezes compro o tipo de arroz favorito dele, para ele não fazer aquele risoto dos deuses.

Às vezes coloco duas toalhas para o nosso não-banho.

Às vezes sou os números dele. O telefone. A placa do carro. O CEP. A data de nascimento. Não sei informar o atual estado civil.

Às vezes ele está tão dentro de mim. Às vezes tão fora. Às vezes dentro ou fora é o que menos importa.

Às vezes o Google (e só o Google) me ajuda a decidir nosso próximo destino.

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É crônico 

Andreza Taglietti

Paula se despedia. Paula não queria. Paula já sabia. 

Já reconhecia os sintomas. A garganta. Nó.Engasgo. Mãos que não se davam. Mas se acorrentavam. Prisão. Algemas. O olhar de reprovação. Raivinha. O enjoo do perfume. Náusea. Repulsão. Buquê que vira ce-cê. Sândalo que vira catinga. Jasmim que vira gambá.

Abraço-sufoco. E um colo quente demais para o coração de Paula. Tomara que a gente não possa se ver hoje. A prece da monotonia. A prece da saturação. Não é possível. Tudo de novo. Reprise. Verdade. Talvez nunca tenha sabido amar.

Saciedade. Lassidão. Insipidez. Mortificação. Tédio. Reprise. Verdade. Descobri que não te amo mais. Um bom jeito de começar? Ou de terminar? Paula precisava ver o filme de novo. Como Cristina fez pra deixar Maria Elena e Juan Antonio mesmo? Vamos lá. Era fácil. Cristina não estava mais feliz. Paula também não estava mais feliz. Reprise. Verdade. Woody Allen.Barcelona. Fim. Outro.

Paula nunca soube fazer. Paula mandou Henrique embora. On her way. A louca. A possuída. Maria Helena. Exu. Anhanguera. Controladora. Ciumenta. Nada a perder.

Henrique devolveu as chaves. Paula trocou as fechaduras. E a armadura. Não quer outros fins. O outro sofre demais.

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Das coisas que melhoram com o tempo

tempo.jpgAndreza Taglietti

O círculo íntimo de amizades. O café coado. O café gelado. O David Beckham. A Michelle Obama. O silêncio. A respiração. A aceitação. A escuta generosa. Os (re)começos. O centro do peito. Bem lá no centrão do peito mesmo. A oração da Bethânia. Eu e eles. O almoço do domingo. O não-conflito. O abraço. O ombro. O colo. O carinho. O silêncio. O Aliócha Karamázov. O silêncio. O beijo. Os beijos. O silêncio. A simplicidade. A respiração. A Capitu. A legião urbana. O Spotify. O silêncio. As janelas abertas de manhã. A respiração. O mês de setembro. O sofá da sala. O sexo. A respiração. O domingo (de novo). O silêncio. O Murakami. A armação dos novos óculos. Com a idade, o grau estabiliza. Será, doutor? Aquele antigo show do R.E.M. A Champions League. A bicicleta. O silêncio. O papo com a dona Teresa, do primeiro andar. A relação com o corpo (né, ciático?). A mala da viagem. A respiração. O caminho para o desconhecido. O retorno. O silêncio. O forró. A Tarsila do Amaral. A coleção de havaianas. As janelas abertas à tarde. A respiração. O box 10 da Dr. Arnaldo. O Bozo. A Laura Cardoso. A vida de Antonia. A observação da natureza. A amora-presente. As agulhas. A acupuntura. As tatuagens. O tatuador. A tatuadora. O fogo. A respiração. O divã. Rir de si mesmo. Talvez gargalhar. Rir do outro. E com o outro. Os memes. A concentração. O silêncio. A Scarlett Johansson e o Bill Murray em Encontros e Desencontros. More than this. A linha verde do metrô. O Depeche Mode. A respiração. A terça-feira no parque Villa-Lobos. A pimenta. A conversa com Raimundo. Ele cuida das plantas do condomínio. O açafrão. O gosto do perdão. E o gosto pelo perdão. O movimento do bambu. O silêncio. A respiração. Os ex-amores. O espelho. As janelas abertas à noite. A Meryl Streep. O Netflix. Que rima com Matrix. Que também melhora com o tempo. O alongamento. A respiração. O silêncio. O reconhecimento das emoções. O Raul Seixas. O diálogo com a infância. E com a criança. A identificação dos medos. A (brutal) honestidade. A conversa (e a trégua?) com os esqueletos nos armários. Embaixo da cama. Na vida. Os karaokês. O silêncio. As evidências. Pra que viver fingindo se eu não posso enganar meu coraçãaaao? O silêncio. Os aniversários. O cabeleireiro. A esteticista. A Serra da Cantareira. A dança das lágrimas (chorar também é fundamental, caro poeta). A segurança nas escolhas. A relação com a natureza. Comer, rezar e amar. O desapego. A intimidade com a morte. O silêncio. A respiração. As janelas abertas novamente. A respiração. E nós. Nós melhoramos com o tempo, não acha? Em silêncio.

Crédito da foto: Uros Jovicic

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Cheiro de peixe

por Andreza Taglietti

Era o cheiro de peixe. Embrulhava o estômago de Antonia. Inquietações. Fraqueza. Intolerância. Solidão. Penetravam nas narinas. Acendeu o abajur índigo. Da cor da flor do linho, disse o vendedor da loja da Consolação. Insônia. Escolheu Kafka e os sonhos intranquilos. Mas teve medo de acordar inseto. Inseto sem melodia. Sem magia. Sem fantasia. Paúra de encontrar maçãs apodrecendo nas suas costas. Sentiu saudades do tempo em que a única maçã-vilã-que-temia era aquela dos contos de fada.

Antonia precisava. Precisava, precisava, precisava. To do list. Lavar os pratos. Limpar o banheiro. Escovar o carpete. Tirar as cortinas. Abrir as janelas. Ventilação. Luz. Sol: dignidade aos objetos da casa. Não podia esquecer de organizar as correspondências. Não abria todas de uma vez. Uma por dia. Um capítulo por dia. Uma conta pra pagar. Um capítulo importante no-mundo-sem-melodia de Antonia. Um panfleto com as promoções do supermercado Bom Vizinho. Vida na esquina. Nas prateleiras. Aviso de preços baixos na Pharmaplus. Não-morte na farmácia. Ela precisava comer, se nutrir, arrotar, peidar, cagar, se limpar, assoar o nariz, se cuidar, tomar banho, se depilar, cortar as unhas, arrancar os pelos das narinas. Aquelas que inalavam o cheiro de peixe.

Obrigada, disse ela ao caixa do supermercado. Quarta-feira era dia de afeto. Não, não era dia de feijoada da Dona Iara. Era dia de afeto. Domingo também. Feira na rua Firmino Arruda. Dia de encher o carrinho. De pastel com recheio de benquerença. De autoestima. De caldo de cana com palavras de mel. Que mulher que não volta da feira com o carrinho cheio de autoestima? Uma banana, por favor. Um papaia pequeno. Um limão. Um pé de alface. Gengibre. Hortelã. Pepino. Tentativa de se desintoxicar do cheiro do peixe. E de tudo mais. De vez em quando Antonia pedia tudo em dobro. Guloseimas, gulodices. Sustento do espírito. Pagava caro pra levar a autoestima no carrinho. Maçã, não. Lembrava Kafka. Preferia as laranjas e as metades. Gostava de Fabio Junior. Ele costumava acompanhá-la nos passeios.

Antonia estava cansada. Astigmatismo. Da vista. Da vida. Mas o cansaço traz mensagens. É o pombo-correio dos fadigados. É anabolizante. É esteroide. Ganho de musculatura. Antonia abriu um livro. Ecfonema. Foi buscar no dicionário: Súbita elevação da voz em razão de surpresa ou fato comovente, e que se traduz em exclamações e frases fragmentárias. Antonia precisava de ecfonemas. Precisava, precisava, precisava. Caralho, o cheiro de peixe. De novo.

 

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Lazaróides

por Andreza Taglietti

 

Bruno ainda não estava preparado para Lazarus. Chorava a morte do irmão. Do pai. Da mãe. De alguns amigos. A distância da filha. O abandono. A orfandade. A solidão. O luto.

Marco, o irmão. Nível 3 da Escala de Coma de Glasgow. Movimentos involuntários. Lazaróides. You know, I will be free. Just like that blue bird. O Bowie estava vivo. No MIS. Havia Lazaróides. Sempre houve. Mas ainda não havia Lazarus.  Ninguém estava preparado para Lazarus. Fucking Bowie. Também me abandonou.

Marco foi cremado com poesia. Em francês. Recitada pelas filhas Marcela e Valentina no Horto da Paz. Aquela que Bruno nunca sentiu. Ele só conseguia lembrar da viagem a Viena com o irmão e com o pai. A nostalgia é mais deformadora que a morte. Lazarus pode ser belo. E a poesia pode ser cinza.

Orquestra Filarmônica de Viena. Os três reunidos pela última vez. Marco passaria dois anos na cidade. Trabalho. Bruno e o pai voltariam para o Brasil no dia seguinte. Um jantar. Duas garrafas de vinho. Eu abandonei a mãe de vocês na Itália. Não, ela não estava morta quando partimos de Rimini naquele ano. Vocês eram muito pequenos. Não entenderiam minha decisão. Paola morreu anos depois. E nos deixou Isabela. Uma filha que nunca conheci. Uma irmã à espera de irmãos.

Marco não perdoou o pai. Pela mentira. Pelo sofrimento. Dele e da mãe. Pela frieza. Pelo egoísmo. Por ter se tornado a mãe de Bruno. Pela não-infância. Pelo não-afeto. Por acreditar que o viúvo Nicola bebia-e-batia-e-bebia-e-batia por ser viúvo. Por almoçar e jantar sopa fria, gritos e agressões. Como será que é ter uma mãe? Toda criança tem o direito de ter uma mãe, porra. A vida por um mingau de Paola. Com direito à maisena, aveia, achocolatado, canela.

Cinco. Cinco anos se passaram entre a morte de Nicola e a descoberta da doença de Marco. Como não viu isso antes. O pai estava ali, vivo, em Marco. Cercado por Lazaróides. Mas o enfermo era Bruno.

Uma passagem só de ida, por favor. Ah, posso escolher meu assento? Tanto faz. Desde que não seja com vista para um mar de impossibilidades.

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Analógicos

por Andreza Taglietti

Não pediram a senha do wifi no restaurante. Sintoma. Não trocaram telefone. Medo. Voltar no tempo. Tarde demais. Quem sabe acelerar os ponteiros. Quem sabe.

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Algo bom vai acontecer

Andreza Taglietti

Que barulho é esse? De torneira aberta, água, tô lavando louça, aiiiiii. O que foi? Acabei de quebrar um copo. Porra, mas você tá falando comigo e tá dando uma geral na cozinha, tudo ao mesmo tempo? Ué, qual o problema, vai me dizer que você nunca fez isso antes? E tô no viva-voz. Telefone novo. Machucou? Tá sangrando? Não, tá tudo bem. Agora botei uma fé. Yes. Viva o copo quebrado. Precisamos comemorar esse monte de caco na minha pia. Como assim? Superstição. Jura que nunca ouviu falar? Dá um google aí. Copo quebrado. Página virada. Situações mal resolvidas estão ficando pra trás. Algo bom vai acontecer. Tá vendo? Copo quebrado é generosidade. Da vida. Copo quebrado é o Cauã Reymond. É flagrar o vizinho Renatinho se trocando. É o Zap do jogo de truco. Dilsinho, meu ex, me ensinou que Zap é a carta da sorte. Copo quebrado é ganhar ingresso pro Paulinho da Viola. Ou pra um spa day. Acho que vou postar a foto desse vidro todo com a hashtag gratidão. Ou hashtag-é-muito-amor-por-um-copo-quebrado. Ou hashtag-amor-que-não-se-mede. Ou hashtag-renovação. Reconstrução. Meu, que ridícula. Eu sei. Mas me deixa acreditar nesses cacos espalhados pela pia. Pelo chão. Uma esperança para cada pedaço-do-copo-salvador. Tá bom. Vem cá. Você acha mesmo que isso faz sentido? Sabe, há anos eu não quebrava um copo. Precisa fazer.

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Vinis, snapchats e despedidas

Andreza Taglietti

Cidade luz. Sempre uma boa ideia. Paris, Paris, Paris. Luisa. Antonio. O rio. O dolce far niente. O vinho. A conversa. Montmartre. As pontes. Os clichês. A alegria. E a tristeza. A Torre Eiffel também ilumina despedidas.

Luisa pensou ter se despedido de Antonio. Em Paris. Nas Muralhas da China. Em Nova York. Na Pompeia. Na esquina. Jogou tudo fora. Um ratatouille de lembranças. Orgânicas. Pelo ar. Pelo fogo. Pela privada. Pelo lixo. Não se pode reciclar um grande amor.  Despedida é decomposição. Lixo hospitalar. Putrefação. Esgoto. Migalhas para os ratos de Paris.

Mensagens e fotos deletadas. Sem playlists. O virtual e o analógico. A despedida em tempos de Spotify. O vinil agora é vintage. E as relações duram o tempo de Snapchats. Luisa pensou ter superado. Luisa pensou ter se curado. Healing, disse a carta do tarô. Luisa até beijou outros. Experimentou outras. Luisa até se apaixonou por Fernando. Esforço. Futuro. Limitações.

Luisa não conseguia se desligar. Ela não sabia identificar do quê. Não, não era dor. Era mais que dor. Era violento e agoniante. Abandono. Desnutrição. Mutilação. Impossibilidades. Orfeu em tom de sangue. Era Luisa. A força do tempo. O tempo todo. Sangue contaminado de passado. Filho da puta de passado. Dez anos nas veias de Luisa. Coagulação. Obstrução. Das artérias. Da vida. Como desobstruir? Luisa não encontrou a resposta.

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Na alegria e na tristeza

Por Andreza Taglietti

Eu disse sim. No impulso. No calor. Na paixão. No pillow talk. No pós-carnaval. Quando não havia mais águas para fechar o verão. Sim, sim e sim. Eu disse sim às possibilidades. Eu disse sim à cumplicidade. À parceria. Às gargalhadas. Às borboletas no estômago às 7 da manhã. Sete da manhã num dia de domingo, meu caro Tim Maia.

Eu disse sim às roupas. Aos acessórios. Aos produtos de beleza. Revistas. Livros. Playlists. Aplicativos. Holofotes.  Eu disse sim a uma saia de olho grego. Pra espantar o mau olhado. Aviso. Dizer “sim” à vida muitas vezes pode atrair mau olhado, queridas leitoras e caros leitores.

Eu disse sim à disciplina quase militar, como diz doutô Drauzio. Pena que o Wagner Moura e o Capitão Nascimento não vieram no pacote. Eu disse sim às pessoas. Você é louca. Sim, sou louca. Você é muito radical. Sim, sou muito radical. Você corre muito. Eu não consigo correr tudo isso. Sim, você consegue. Tem que gostar muito, né. Sim, tem que gostar muito.

Eu disse sim ao medo. Porque, sim, dá medo começar uma nova relação, não dá? Medo de não me adaptar à nova rotina. Medo de me machucar. Medo de não conseguir cumprir a minha parte do pacto. Medo de não ser capaz. Medo de não me dedicar o suficiente. Medo da partida. Medo da não-chegada.

Eu disse não. Não às viagens nos feriados. Não a muitas baladas. Não aos amigos boêmios. Eu disse não à família. Não à minha deliciosa São Paulo noturna. Ao samba. Ao rock. Ao show do Ney Matogrosso. Ao Lenine. Ao meu querido time do Morumbi. Eu disse não ao vinho. Tadinho. Não, não e não.

Fiquei machucada. Fisicamente. Pé. Lombar. Ciático. Fibulares. E eu nem sabia que eles existiam. Devia ter denunciado essa violência toda. Lei Maria da Penha. Mas sou mulher de malandro. Voltei. Renovei meus votos. Voltei e tatuei. Pra machucar mais um pouco.

Corrida é casamento. Correr é dizer sim. Correr é dizer não. Sentir. Prazer. Tesão. Suar. Vibrar. Entender. Respeitar. Observar. Construir. Ceder.  Não existe lua de mel eterna com a corrida. Rotina. Intimidade. Mágoas. Cicatrização.  Altos. Baixos. Cansaço. Estou de saco cheio. Não aguento mais. Frases que fazem parte. Do relacionamento. E da corrida. Ninguém é perfeito.

Corrida é casamento. Um casamento que me possibilitou visitar e acessar lugares internos que existem e eu não conhecia. Me reinventou. Me ensinou a praticar uma escuta generosa. Do meu corpo. Dos meus amigos parceiros de corrida. Do meu despertador. Do chão. Da natureza. Da minha trajetória. Do meu silêncio. Do meu barulho. Das minhas feridas. Da minha força. Da minha respiração. Me mostrou o real significado de cumplicidade, realização, conquista, confiança. Em mim e nos outros. Testou meus limites.

O meu casamento com a corrida me deu direção e (mais) conexão com a vida. Só tenho a agradecer, agradecer e agradecer. Eu disse sim ao coração. Deu vontade de viver muito mais tempo nesse mundo maluco. Corrida é ter chão. Correr é poder olhar pra frente. Correr é liberdade. Liberdade de poder sonhar com o próximo passo. E você? Qual é o seu próximo passo?

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Quarenta e oito horas

48 horas

Andreza Taglietti

Meu caro,

Sempre dizem que eu chego sem avisar. Não é verdade. Tenho bons modos e sou educada. Envio esta carta para dizer que passarei por aí em dois dias. Esteja pronto em 48 horas – a hora da sua partida. É tempo suficiente para se despedir, não acha?

Comece por Rita. Deixe que sua companheira lhe faça carinho e lhe dê aquele beijo na testa. Será o penúltimo. O último beijo será em seu ataúde.  Lembre-se. Ela abotoará seu terno preto e sua camisa branca, fechará seu zíper, ajeitará seu cabelo que insistirá em chamar de prateado, como as estrelas. Mais uma vez. E pela última vez.

Não se esqueça de Mirtes. Ela sempre te deu trabalho, mas ela só tinha você. Lembra quando ela te ligou da delegacia, presa por desacatar o policial numa blitz? E aquele forrobodó que fez na festa do teu casamento? E aquela fase do cabelo vermelho? Não deixe de agradecer à sua única irmã por um pouco de gracejo e de desassossego que deu à sua vida – quase um samba de uma nota só. E até “o samba de uma nota só” carece descompassar de vez em quando.

Paula, Nina e Luísa. Elas chegaram à família Ribeiro Silva nesta ordem, mas você pode escolher de qual filha se despedirá primeiro. Não se preocupe em disfarçar, elas nunca tiveram a fantasia do pai principesco. Presenciaram muitos momentos em que sua agudeza e sua frustração contaminaram o número 81 da rua Belarmino de Matos. O filho homem que nunca veio; a promoção que não aconteceu; as tentativas de justificar as traições descobertas. E não julgue Luísa por não ter casado e não ter lhe dado netos. Ela lembra Mirtes, não?

Deixe todas as suas vontades em vida – o apartamento no Guarujá, o sítio em Atibaia, a Caravan (a relíquia da família), as economias, a coleção de selos do Vaticano, os vinis dos Beatles. E os pôsteres da Seleção Brasileira – aqueles que você guardava para o varão que nunca chegou. Já aviso que ninguém vai se interessar pelos troféus de melhor funcionário que você ganhou por tantos anos consecutivos no Banco do Brasil. Muito menos por aquela coleção do Paulo Coelho. Sebo nenhum vai querer, não perca seu tempo.

Você não terá tempo de visitar Sertãozinho. A cidade das suas primeiras festas de Natal; dos primeiros aniversários; dos passeios de bicicleta na Praça 21 de Abril, enquanto os sinos da Igreja Matriz tocavam, avisando que já anoitecia e era hora de voltar pra casa. Mas a feira da rua Terezina, aí no seu bairro mesmo, pode ser um bom lugar para você se despedir dos cheiros e dos sabores da infância. Fruta tem gosto de travessura – da guerra de tomates; da árvore que não se podia subir; das goiabas do Chico Bento; da uva amassada com o pé pra virar geleia, suco ou vinho.

E, se der tempo, escolha um filme preferido e o assista até não poder mais. Aqui não tem TV a cabo nem Internet.  Dá um cagaço, né? A propósito, você sabe rezar?

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Gato Preto

Fernanda de Castro Lima

Sentei-me num banco, cigarros se sucediam. Uma porção de lembranças.

Palavras não ditas ou tatuadas tortas inquietam a alma e forçam uma tragada até os pulmões não suportarem mais.

O toque áspero da mão calejada no seio enrijecido. Nas coxas úmidas de desejo. No coração parado no tempo.

Um gato preto passou teatral como só os felinos sabem e deitou aqui, embaixo de mim. Tenho pavor a gato preto porque traz má sorte. Se é que sorte tem como ser má. Você adorava o gato. Talvez só para me provocar.

Os passeios de carro para tomar vento no rosto, sem saber aonde. As tardes de domingo desperdiçadas num sono sem culpa dando nós com os pés. Discussões intermináveis por motivos que nem lembrávamos quais. Filmes de ação, ficção, e os água com açúcar só para me agradar. Devia ter visto os de terror, você sempre quis. Nem que fosse desculpa para ficar agarrados. Nunca assisti.

Teve aquela vez que bebemos e dançamos na praia. Os meus pés machucaram e continuamos a dançar. Uma música que não se ouvia, mas a gente sabia que estava lá. Teve também a morte da sua mãe. Não gostava dela, mas eu gostava de você.

A falta de dinheiro fez quase faltar o amor. As brigas eram tantas. Pelo vestido vermelho que você pensava que eu tinha devolvido. Nem serve mais. E continua lá, no canto do armário. Pelo cabelo diferente que você nunca notou, pelo parafuso que você não apertou, pela batida que eu provoquei, a comida que queimei, a resistência que você não trocou. Tive que aprender.

O gato se mexeu e eu senti o rabo encostar na minha perna de três semanas sem depilar. E eu visto uma saia assim mesmo. A azul, lembra? Traguei meu cigarro em vez de gritar. Abafo meu medo, minha raiva. Se eu tivesse forças matava o maldito do gato. Posso jurar que isso é coisa sua.

Ainda sinto o cheiro. Da pele, dos cabelos, do sexo. O gosto da boca, do chocolate na ponta do dedo para me excitar. Do melhor sorvete do mundo às segundas-feiras, das vitórias em cima do seu Palmeiras, da vingança sobre a mulher que quis tomar de você de mim.

A viagem em que ganhei aliança e quando você a pediu de volta, quase no mesmo lugar. O sorriso debochando das palavras tolas, dos senãos mal explicados, do ronco que me despertava no meio da noite, dos abraços de me sufocar.

O sangue que vi escorrer e que preferia ser cega. O grito que ouvi e queria ser surda. A dor que senti e que desejo estar morta. No seu lugar.

Acendi o último cigarro do maço.

E a culpa é do gato preto. A sorte seria boa se não fosse por ele.

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Dezembro 4, 2013 · 10:37 pm

O Coveiro e a Exumação

Fernanda de Castro Lima

Dava até para ver a coroa dourada no dente da velha. O grito saiu alto e forte para quem não devia ter tanto fôlego. As rugas esticaram de um jeito que ela remoçou anos em segundos, mas só até ela cair nos braços do filho. Aí, com o rosto relaxado deu pra ver que a velha era bem velha mesmo. Quem estava lá não sabia se acudia a velha ou se procurava o morto. Que confusão!

“O morto sumiu! O morto sumiu!”, alguém falou quando abriu o caixão. Correria de um lado, correria do outro. Foi um festival de mão na boca, na cabeça. Até na bunda da mulher gostosa uma mão passeou que eu vi, pra depois levar uma na cara. O bom é que se não tem morto, se a velha morre, já tem caixão. Mas a velha não morreu, então precisava do morto.

Nunca vi tanta gente em exumação!

O moleque sardento de boné na cabeça e remela no olho cutucava o pai, a mãe, e qualquer um que passasse na frente. Mas com o morto sumido quem vai dar trela praquela criança desajeitada e sem graça? “Que vá chutar pedrinha!”

“Onde foi parar? O que aconteceu?”, um perguntou. “Evaporou, desintegrou”, o outro respondeu. “Ô, coveiro. Ô, coveiro. Como é que isso aconteceu?”.

Sei não, moço. Vai ver que o morto cansou de ser morto e foi vagar por aí.

O dedinho gorducho com a ponta vermelha do menino encostou na barriga do primo. Tomou um tabefe bem dado porque ele achou que era bicho.

“Chama a polícia que isso é caso de roubo”. “Mas que mundo é esse que até de morto tem ladrão?”

A tia sentiu alguém puxando o casaco. “Mas que garoto mal-educado! Vai catar coquinho”.

A velha já estava vermelha de tanto calor. “Um copo d’água pra ela, por favor”.

A polícia chegou e todo mundo teve de falar. Nem o moleque escapou. “Você viu alguma coisa?”, a polícia perguntou.

De cabeça baixa, o pirralho tirou o dedo do nariz e apontou pro túmulo ao lado, que aquele sim tinha o nome do avô. Todo mundo fez silêncio e depois falou: “Menino tonto! Por que não contou? Ai, que confusão!”.

Depois de achado o morto, finalmente a exumação. Guardei os restos do homem numa urna pequena diante da família inteira. A velha chorou e depois saiu, puxando o garoto pela mão. E eu continuei lá no cemitério, sem saber onde estava o morto do primeiro caixão.

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Vestidos choram

Vestidos choram

Andreza Taglietti

“Será que dá tempo de fazer xixi? Que burra. Devia ter pensado nisso antes de colocar essa roupa. Que saco, viu. Não faz sentido usar toda essa parafernália pra não ficar nem uma hora no palco”.  Sentada, de pernas cruzadas, Cecília olhava para sua sapatilha rosa, rodopiando o seu pé direito em sentido horário, anti-horário, horário, anti-horário.

Já tinha aquecido seu corpo. Não quis se olhar no espelho, se sentiria insegura demais. Levantou. Ajeitou as flores do cóque do cabelo, as mangas do collant (rosa) tamanho P e o vestido (rosa) de chiffon, curto e de pontas irregulares. Deu uma olhada na meia calça (rosa) pra ver se não estava desfiada.  “Que maravilha, a versão Barbie Bailarina entrará em cena”.

Quis esquecer a bexiga cheia, brincou com os passos básicos – plié, demi plié, relevé.  E pensava na mãe. A mãe Perfeição. A mãe Precisão. A mãe Vaidade. Entrou no palco. Flutuou. Em transe, rodopiou. Muitas e muitas vezes. Com pressa. Porque não via a hora de tirar aquela fantasia de moça meiga e delicada.

Era a vez da festa de 15 anos. O vestido tinha mangas bufantes, numa cor que Izilda adorava chamar de champanhe. Algumas pérolas da família estavam espalhadas pelo pescoço, nas orelhas e no pulso da debutante. O vestido e as pérolas faziam parte do kit santidade. O cabelo foi escovado até a cintura – a mãe não deixava cortar aquele exagero. O sapato era dourado e alto. Apertava os pés. E a alma. A maquiagem, em tons de socorro. Dançou com Rogério (o pai), com Carlos (o irmão), com Vicente (o avô). Desfilou e sorriu para todos que eram coadjuvantes na história que a mãe construía para a filha – a protagonista, a atriz principal.

A filha de Izilda conseguiu dizer não à Medicina, mas não se livrou do baile de formatura. E do vestido. De novo. Queria preto. A mãe, azul. Azul combinaria com a roupa de Izilda, com a gravata de Rogério e com as joias da família. Era a vez do ouro branco com diamantes e cristais de rocha.  Preferia sua parte em dinheiro. Preferia ter viajado com a turma para Fernando de Noronha. Fez sua parte. De novo. E prometeu – seria a última vez.

O telefone tocou na casa da família Lopes de Macedo. Era Cecilia. “Estou voltando para o Brasil, vou me casar, chegarei ao país um dia antes da cerimônia”. Já tinha reservado o dia (gostava do outono), e escolhido as flores para a decoração (girassóis, como na Toscana).  A festa aconteceria no sítio de um amigo, Gustavo, que também celebraria o enlace. Izilda desligou o telefone. Ligou para as irmãs Beth e Lúcia. Contou para a mãe, Ana. As mulheres da família quiseram fazer uma surpresa para a noiva. Encomendaram o vestido da cerimônia.

Cecilia chegou. Colocou as malas em seu antigo quarto, na parte de cima da residência. Abriu o armário. Cheirava os dez anos que ela tinha ficado fora de casa.  Ainda havia algumas fotos de infância na parte de dentro das portas. Das suas apresentações de balé, das festas de Natal. Sentou numa minibanqueta que ficava dentro do armário. Ainda cabia lá. Vantagem dos anos de dança. Olhou para cima, para os lados. “Sabia que lá em Portugal te chamam de guarda-vestidos? Lembra quantas vezes quis me trancar aqui e nunca mais sair?”.

Tomou um banho, colocou uma calça jeans, uma regata branca, chinelos e desceu até a sala, onde esperavam as tias Beth e Lúcia, o pai Rogério, o irmão Carlos com sua esposa Janaina. As primas Sandra, Valéria e Roberta. A mãe Izilda e a vó Ana . “O vô Vicente faz falta”.

– Você quer nos matar de ansiedade, Cecilia? Conta tudo, menina.

– Calma, tia Beth.

– Quem é essa pessoa? É de qual lugar da Europa? Ou é do Brasil? Conhecemos a família?

– Não, vocês não conhecem, tia Lúcia.

– Temos uma surpresa pra você, abra. É um presente das mulheres da nossa família.

– Obrigada, vó.

Cecilia abriu a caixa tão branca e tão acetinada quanto o vestido que estava dentro.  Saia longa até o pé, poucos bordados, tomara que caia. O cabelo curto valorizaria os ombros largos na medida certa, postura que ganhou com os anos de balé. Devia isso à sua mãe.

– Experimenta, estamos curiosas pra saber como vai ficar em você.

– Vou subir e já volto, vó.

Cecilia caminhou até a escada. Passos firmes e precisos, como no palco. Subiu com o vestido nas mãos. Entrou no quarto, pegou uma tesoura. Passou a vida com vontade de rasgar todos os vestidos que foi obrigada a usar.  Um retalho para cada lembrança.  As apresentações de balé, a festa de quinze anos, o baile de formatura e até momentos que ela nem lembrava – qual teria sido seu vestido de batismo? E do batismo do seu irmão? E da primeira comunhão?

Desceu as escadas. De calça preta de alfaiataria, camisa branca de seda. Sapato preto. Salto baixo e confortável, como andava a sua alma.

– Eu me casarei assim.

– Como “assim”?

– Assim, de calça preta e camisa branca, vó.

– Isso é pessoal, não é? É pra me matar de vergonha na frente da nossa família e dos nossos amigos, não é?

– Não, mãe, não é pessoal.  Eu me casarei com Natália. E ela usará um vestido.

Izilda se trancou no armário do quarto da filha. Abraçada ao vestido retalhado. E os dois choraram. Ninguém da família Lopes de Macedo apareceu na cerimônia de Cecilia. Mas isso ela já sabia. E não chorou.

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A culpa é da Madonna

A culpa é da Madonna

Andreza Taglietti

Já estava ali ao meu lado quando acordei. Os enfermeiros trocavam as fraldas dele. Tinha cagado sem perceber. Depois da higiene, partiram para tubos, morfina, monitor cardíaco, bombas infusoras. Medicamentos nas veias. Escaras. Hemorragia. Um, dois, três. Maca. Ajuste da cama. Um, dois, três. Cama. Cagou de novo. Troca de fraldas. De novo.

Os remédios me dominavam. Não me deixavam entender a situação dele. Meus olhos não abriam. A curiosidade fazia meus ouvidos trabalharem em dobro. Escutava um nome – Roberto. Não ouvi netos, filhos, irmãos, irmãs. As chegadas e as partidas de Roberto me davam a noção do tempo. Três da tarde, Roberto. Dez da manhã, Roberto. Meio-dia, Roberto. Meus olhos viam o vulto Roberto – um boneco de porcelana de cabelos da cor da jabuticaba. Era o que eu conseguia enxergar.

Os médicos disseram a Roberto que em pouco tempo ele acordaria. A espera de Roberto me fez companhia. A fala dele e a sedação me causavam alguns delírios  – qual era o mundo da respiração artificial mesmo? Os doentes lá de fora tinham oxigênio, e eu não tinha, era isso? As substâncias que me injetavam ali davam mais barato do que as drogas das ruas? A cor do cabelo de Roberto era jabuticaba mesmo?

E foi Roberto – o Beto – que contou sobre Carlão, meu vizinho-pugilista-peso-pesado-do-Cariri. Com a paternidade em branco na certidão de nascimento, o rebento de dona Guiomar um dia se fez pronto para deixar aquela casa. Partiu de ônibus, com a foto do cachorro nas mãos. Conheceu o mar, a bebida, as prostitutas, os garotos de programa. Nunca mandou notícias para a mãe.

Certa temporada arrumou um bico de motorista de ônibus para excursão de turistas. Conheceu Guto, lutador de boxe. Tornaram-se amigos. Guto lhe fazia alguns pedidos de vez em quando. Uma encomenda, um pagamento, um não-pagamento, uma entrega. E um desses favores levou os dois para o presídio Olavo Silveira, na Rua da Misericórdia.

A gente consegue imaginar o resto da história. Na cadeia, companheiras de cela: dedicação e disciplina. Treinos e condicionamento dos músculos ao longo da semana. Luta aos domingos. Diversão, apostas, rixas. Muitas. Desafios. Muitos também. Os dois saíram do presídio. Guto retomou sua carreira. Prêmios, reconhecimentos, viagens, cinturões. A fórmula advogado-empresário-dinheiro fez todos esquecerem o incidente. Carlão também ganhou um título – de ex-presidiário. E só. Para a vida toda.

E como ele veio parar aqui, Roberto?

Naquela segunda-feira, Carlão não encontrou o mamão na geladeira para o café da manhã. Uma fruta para cada dia. Era segunda-feira. Ele precisava do mamão. A rua São Bento estava sem luz. Devia ser o temporal ou alguma pipa nos fios. Ele precisava do mamão. As brechas nas cortinas ajudaram Carlão a pegar o guarda-chuva e juntar algumas moedas. Mas os degraus, ai, os degraus. Eles estavam ali. À meia-luz. Ele precisava do mamão.

Setenta e seis anos. Noventa quilos. Dois, cinco, oito, onze, doze, treze, quinze _chão. Não há poesia quando se cai da escada. No térreo, os dentes e o sangue saíam da boca e dos ouvidos. Ausência do lado esquerdo do rosto e de algumas costelas. Um nocaute. Carlão Calango. Ficou ali. Até o lusco-fusco. Até Beto encontrar o réptil.

Ah, você me perguntou por que estou aqui, certo, Betão-boneco-de-porcelana?

A culpa é da Madonna. Obsessão pela diva. Pegou o Sean Penn. Que inveja. Beijou (na mesma noite) a Britney Spears e a Christina Aguilera. Que delícia. Sem contar aquele clipe que ela tasca um beijo naquele Santo-Negro-Gato. Daqueles que a gente quer lá em casa pra fazer um milagre, sabe? As igrejas chiaram. E não foi em tom de prece. Valha-me Deus.

Não queria ficar como a Rita Cadillac ou a Gretchen, não. Não gosto de traseiros-luas-cheias. Nem como a Garota de Ipanema. Coisa sem graça. Para mim, o padrão é Madonna – de bunda, braços, pernas, cintura, manequim, cabelo, pele. E o que restou dessa obsessão foram quarenta quilos (ou menos); distúrbios; e cortes e recortes pelo meu corpo. Paralisia. Aberração. Paranoia. Mas essa é outra história, Roberto. Não importa. Daqui a pouco Carlão e eu teremos o mesmo peso, sabia? Dizem que a alma pesa 21 gramas.

Roberto, não desvia do assunto, não. Preciso te fazer algumas perguntas antes de partir. Quem é você? Você foi apaixonado por Carlão? Ou foi você que deu o empurrãozinho pra ele cair da escada? Ou as duas coisas? Você é o Guto? Você tinge o seu cabelo, Roberto? Qual é o tonalizante? Preto-Ébano? Tem amônia?

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Discípulos de Marcelino Freire

Este blog é o ponto de encontro de escritores que fizeram a Oficina de Criação Literária com Marcelino Freire, e não querem nunca mais parar de escrever. Somos os discípulos de Marcelino. Amém, Jesus.

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